1. Cantos de Trabalho
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CIA. CABELO DE MARIA APRESENTA
CANTOS DE TRABALHO

Renata viajou por diversas localidades de diferentes regiões do Brasil buscando comunidades que ainda trabalhassem em mutirão e que utilizassem a música na lida. O espetáculo “Cantos de Trabalho” surge a partir das canções registradas em campo.
Para tanto, a cantora chamou Lucilene Silva (também cantora e pesquisadora de cantos de trabalho) e os músicos Gustavo Finkler (que assume o violão, a viola caipira e os arranjos do espetáculo) e o violinista Felipe Dias e o percussionista Paulo Pixú.
As cantigas apresentadas no show “Cantos de Trabalho” vêm das destaladeiras de fumo de Arapiraca (AL), das descascadeiras de mandioca de Porto Real do Colégio (AL), das plantadeiras de arroz de Propriá (SE), da farinhada da comunidade de Barrocas (BA), da colheita de cacau de Xique-Xique (BA), da bata do feijão de Serrinha (BA) e das fiandeiras de algodão do Vale do Jequitinhonha (MG).
Musicalmente, os arranjos privilegiam o formato acústico, passeando por uma variada gama de estilos e ritmos regionais brasileiros. As vozes femininas vêm em primeiro plano, auxiliadas pelos cantos e contracantos do violão, da viola caipira e do violino. A percussão é feita com instrumentos convencionais e com os próprios objetos utilizados na lida.
Em dezembro de 2007, o selo SESC lançou o CD “Cantos de Trabalho” com a Cia Cabelo de Maria e a participação das destaladeiras de fumo de Arapiraca, obtendo grande reconhecimento do público e da crítica especializada.
FICHA TÉCNICA
Direção Geral e Concepção Artística – Renata Mattar
Direção Musical – Renata Mattar e Gustavo Finkler
Arranjos - Gustavo Finkler
Cia Cabelo de Maria:
Renata Mattar – voz, percussão e sanfona
Lucilene Silva – voz e percussão
Gustavo Finkler – violão, viola caipira e percussão
Felipe Dias – violino
Paulo Pixú – percussão
1 - SINDÔ LÊ LÊ
(cantiga da colheita de cacau da localidade de Salobrinho, Ilhéus, BA)
Registrada por Fred Dantas
2 - COQUEIRO VERDE
(cantiga das Destaladeiras de Fumo de Arapiraca – AL)
Registrada por Renata Mattar
3 – Ô BAIANA, OI, AI, AI
(cantiga das fiandeiras de algodão de Sagarana- MG)
Registrada por Roberto Corrêa e Juliana Saenger
4 - EU VOU QUEIMAR CARVÃO
(cantiga das Fiandeiras de Algodão da Comunidade de São João de Baixo-
Vale do Jequitinhonha- MG)
Registrada por Lucilene Silva
5 – ATIREI NO SOFRÊ
Cantiga de batalhão de trança de Serrinha – BA
6- COQUEIRO VERDE
Cantiga das destaladeiras de fumo de Arapiraca - AL
7- É BALANÇO DA PENEIRA
Cantiga da farinhada de São Nicolau - BA
8- PISA MORENA
Cantiga das plantadeiras de arroz de Própria - SE
9- SEMENTE DE MANDIOCA
Cantiga das descascadeiras de mandioca de Barrocas - BA
10 – PEGA TEU BOI MORENA
Cantiga das destaladeiras de fumo de Arapiraca - AL
11- CAPIM DA LAGOA
Cantiga das plantadeiras de arroz de Própria - SE
12 – SINDO LE LÊ
Cantiga da colheita de Cacau de Ilhéus - BA
13 – IÁ IÁ É HOJE
Cantiga das destaladeiras de fumo de Arapiraca - AL
14- REMA NA CANOA
Cantiga das destaladeiras de fumo de Arapiraca - AL
15- QUE TEM MARIA?
Cantiga da bata do feijão de São José – BA
DURAÇÃO DO ESPETÁCULO – 60 minutos categoria livre
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CANTOS DE TRABALHO – UMA INTRODUÇÃO
Começamos a cantar antes de falar. Evidências antropológicas assinalam que o uso da voz para formar palavras surgiu há cerca de 80 mil anos, ao passo que o canto primitivo teria se iniciado meio milhão de anos antes.
A música fez, primariamente, parte do trabalho e o canto surgiu como uma extensão natural da lida, com o ritmo a sincronizar as tarefas. Na pecuária e na agricultura, a música tornou-se vital para a realização do trabalho. Além disso, facilitava o aprendizado dos novos trabalhadores, que tinham nas canções as instruções para a realização do trabalho.
O trabalho era acompanhado das mais belas cantigas, onde homens e mulheres improvisavam versos, falando de amor ou da própria colheita, comemorando a safra ou pedindo chuva. Muitas vezes, o trabalho seguiria até a madrugada, tamanho era o prazer de estar cantando em grupo quando trabalhavam.
Ao cantar, nossa sensação de esforço diminui e a produção aumenta. São inúmeros os depoimentos de trabalhadores rurais que relatam que o trabalho, ainda que duro e incessante, transforma-se em festa ao darem-se os cantos.
Pela sua enorme variedade e pela forma original com que as cantigas são realizadas, o canto de trabalho tornou-se uma peça única dentro da cultura brasileira. As letras são criadas com tamanha originalidade e criatividade que é difícil não deixar-se seduzir pela beleza e pela sinceridade dos textos.
Mesmo que muitas vezes vivam em situações de extrema precariedade, quando podemos ouvir o canto daqueles trabalhadores, a abertura de vozes que fazem sem nenhum aprendizado e a delicadeza e profundidade das letras não condiz de maneira alguma com a pobreza circundante.
Depois do aparecimento do rádio e, principalmente, da TV, essas reuniões foram desaparecendo, pois de acordo com os próprios, a TV isolou os trabalhadores em suas casas. As cantigas de trabalho começaram a ser esquecidas e entraram em cena as músicas da parada de sucessos.
Por ser um país onde grandes extensões de terra permanecem sem a chegada da tecnologia (ausência essa imprescindível para a existência dos cantos de trabalho), boa parte do interior do Brasil segue organizando o seu trabalho braçal em mutirões.
Hoje em dia, são poucas as pessoas que lembram daquelas cantigas. Ainda assim, é perfeitamente possível encontrar grupos que não só tenham firmes na lembrança seus cantos de trabalho como, ainda hoje, há locais no Brasil onde esse ritual segue sendo praticado: raspagem da mandioca (BA, AL), bata de feijão (BA), mutirão de roça (SP, MG), mutirão para construir casa de taipa (AL), aboios (PE,CE), cantos do milho (índios caiapós), entre outros.
Renata Mattar vem pesquisando cantos de trabalho há mais de dez anos, fazendo gravações, participando de rituais e festas, aprendendo versos e danças. A partir desse material recolhido pela musicista, surgiu o espetáculo “Cantos de Trabalho”, em meados de 2007. Nele, são mostradas não apenas as canções utilizadas nas lidas, mas todo o gestual do trabalho, como uma dança cantada em um belo espetáculo cênico e musical.
Em dezembro do mesmo ano, o selo SESC lançou o CD homônimo com a Cia Cabelo de Maria e a participação das destaladeiras de fumo de Arapiraca, obtendo grande reconhecimento do público e da crítica especializada.
O canto de trabalho é uma das manifestações mais ricas dentro da nossa cultura popular. No entanto, como a chegada da tecnologia às localidades mais remotas caminha a passos largos, essas manifestações estão rareando.
Sendo assim, é urgente que o público possa aproximar-se de tão rica, original e preciosa manifestação da cultura brasileira.
fotos de fernando peão, kiki iizuka e lucas cremasco















